15 de Março de 2012

 

Em 1952, em Guayaquil, Equador, nasceu Jenny Londoño, hoje professora, socióloga, activista na luta pelos direitos e igualdade entre homens e mulheres. Em 1992, o poema Reencarnações, que aqui se transcreve, obteve o primeiro prémio no concurso de poesia “Gabriela Mistral”, realizado em Quito, Equador. Fonte

REENCARNAÇÕES
Venho desde ontem, do passado obscuro,
com as mãos atadas pelo tempo,
com a boca selada desde épocas remotas.
Venho carregada de dores antigas
recolhidas por séculos,
arrastando correntes longas e indestrutíveis.
Venho do fundo do poço do esquecimento,
com o silêncio às costas,
com o medo ancestral que tem corroído a minha alma
desde o princípio dos tempos.
Venho de ser escrava por milénios.
Submetida ao desejo do meu raptor na Pérsia,
escravizada na Grécia pelo poder romano,
convertida em vestal nas terras do Egipto,
oferecida aos deuses em ritos milenares,
vendida no deserto
ou avaliada como uma mercadoria.
Venho de ser apedrejada por adúltera
nas ruas de Jerusalém,
por uma turba de hipócritas,
pecadores de todas as espécies
que clamavam aos céus o meu castigo.
Fui mutilada em muitos povos
para privar o meu corpo de prazeres
e convertida em animal de carga,
trabalhadora e parideira da espécie.
Violaram-me sem limites
em todos os cantos do planeta,
sem que conte a minha idade madura ou tenra
ou importe a minha cor ou estatura.
Tive que servir ontem aos senhores,
submeter-me aos seus desejos,
entregar-me, doar-me, destruir-me
esquecer-me de ser uma entre milhares.
Fui barregã de um senhor de Castela,
esposa de um marquês
e concubina de um comerciante grego,
prostituta em Bombaim e nas Filipinas
e sempre foi igual o meu tratamento.
De uns e de outros, sempre escrava,
de uns e de outros, dependente.
Menor de idade em todos os assuntos.
Invisível na história mais longínqua,
esquecida na história mais recente.
Eu não tive a luz do alfabeto
durante muitos séculos.
Adubei com as minhas lágrimas a terra
que devia cultivar desde a infância.
Percorri o mundo em milhares de vidas
que me foram entregues uma a uma
e conheci todos os homens do planeta:
os grandes e pequenos, os bravos e cobardes,
os vis, os honestos, os bons, os terríveis.
Mas quase todos levam a marca dos tempos.
Uns manejam vidas como amos e senhores,
asfixiam, aprisionam, sugam e aniquilam;
outros manejam almas, negoceiam com ideias
assustam ou seduzem, manipulam e oprimem.
Uns contam as horas com o fio da fome
atravessado no meio da angústia.
Outros viajam nus pelo seu próprio deserto
e dormem com a morte metade do dia.
Conheço-os a todos.
Estive perto de uns e de outros,
servindo cada dia, recolhendo migalhas,
baixando a cabeça a cada passo, cumprindo o meu carma.
Percorri todos os caminhos.
Arranhei paredes e ensaiei silêncios,
tratando de cumprir as ordens
de ser como eles querem,
mas não o consegui.
Jamais se permitiu que eu escolhesse
o rumo da minha vida
e caminhei sempre numa alternativa:
ser santa ou prostituta.
Conheci o ódio dos inquisidores,
que em nome da “santa madre Igreja”
condenaram o meu corpo ao seu serviço
ou às infames chamas da fogueira.
Chamaram-me de múltiplas maneiras:
bruxa, louca, adivinha, pervertida,
aliada de Satanás,
escrava da carne,
sedutora, ninfomaníaca,
culpada de todos os males da terra.
Mas continuei vivendo,
arando, colhendo, costurando,
construindo, cozinhando, tecendo,
curando, protegendo, parindo,
criando, amamentando, cuidando
e, sobretudo, amando.
Povoei a terra de senhores e de escravos,
de ricos e mendigos, de génios e de idiotas,
mas todos tiveram o calor do meu ventre,
o meu sangue e o seu alimento
e levaram com eles um pouco da minha vida.
Consegui sobreviver à conquista
brutal e desapiedada de Castela
nas terras da América,
mas perdi os meus deuses e a minha terra
e o meu ventre pariu gente mestiça
depois do castelhano me tomar à força.
E neste continente manchado
prossegui a minha existência,
carregada de dores quotidianas.
Negra e escrava no meio da fazenda
vi-me obrigada a receber o amo
quantas vezes ele quisesse,
sem poder expressar nenhuma queixa.
Depois fui costureira,
camponesa, servente, lavradora,
mãe de muitos filhos miseráveis,
vendedora ambulante, curandeira,
cuidadora de meninos ou anciãos,
artesã de mãos prodigiosas,
tecelã, bordadeira, operária,
professora, secretária, enfermeira.
Sempre servindo todos,
convertida em abelha ou sementeira,
cumprindo as tarefas mais ingratas,
moldada como um cântaro por mãos alheias.
E um dia doí-me das minhas angústias,
um dia cansei-me das minhas azáfamas,
abandonei o deserto e o oceano,
desci da montanha,
atravessei as selvas e as fronteiras
e converti a minha voz doce e tranquila
em sopro de vento
em grito universal e enlouquecido.
E convoquei a viúva, a casada,
a mulher do povo, a solteira,
a mãe angustiada,
a feia, a recém-parida,
a violada, a triste, a calada,
a formosa, a pobre, a aflita,
a ignorante, a fiel, a enganada,
a prostituída.
Vieram milhares de mulheres juntas
escutar a minhas arengas.
Falou-se de dores milenares,
de longos grilhões
que os séculos nos fizeram carregar às costas.
E formámos com todas as nossas queixas
um caudaloso rio que começou a percorrer o universo,
afogando a injustiça e o esquecimento.
O mundo ficou paralisado
‘Os homens sem mulheres não caminham!’
Pararam as máquinas, os tornos,
os grandes edifícios e as fábricas,
ministérios e hotéis, oficinas e escritórios,
hospitais e lojas, lares e cozinhas.
As mulheres – por fim, descobrimo-lo
‘Somos tão poderosas como eles
e somos muitas mais sobre a terra!
Mais que o silêncio, mais que o sofrimento!
Mais que a infâmia e mais que a miséria!’
Que este cântico ressoe
nas longínquas terras da Indochina,
nas areias cálidas de África,
no Alasca ou na América Latina.
Que o homem e a mulher se apropriem
da noite e do dia,
que se juntem os sonhos e os gozos
e se aniquile o tempo da fome e da seca.
Que se quebrem os dogmas e o amor brote novo.
Homem e mulher, lançando a semente,
mulher e homem de mãos dadas,
dois seres únicos, diferentes, mas iguais.

 

Tradução do Espanhol: Maria E. Catela

publicado por M. C. às 18:45

22 de Fevereiro de 2012

Kriolu ka ta prijudica aprendizagi di purtuguês

 

A propósito da comemoração, no dia 21 do corrente, do Dia Internacional da Língua Materna, a Radiotelevisão de Cabo Verde apresentou o programa Entrevista, que se debruçou sobre o Crioulo caboverdiano e a sua convivência com o Português, língua oficial. A convidada foi a Professora Doutora Amália Lopes, docente na Universidade de Cabo Verde (UniCV). A esse propósito, foi emitida a seguinte notícia, em crioulo no original (ver versão em crioulo):

 

A Universidade de Cabo Verde vai realizar um conjunto de actividades para não deixar passar em branco o Dia Internacional dedicado a todas as Línguas Maternas.


Assim, a UniCV, dentro das actividades dos cursos de estudos caboverdianos e portugueses, vai promover actividades tal como palestras, conferências, divulgação de trabalhos feitos em crioulo, actividades culturais com o uso da língua, para além de momentos de formação sobre o uso da nossa língua nacional que estão em curso.

 

Hoje, para além da apresentação do programa, é feita uma comunicação pelo Presidente do Instituto Internacional de Língua Portuguesa, Gilvan Muller, que, de uma forma livre, vai falar sobre “Línguas Maternas num Mundo Multilingue”.

 

Em relação aos problemas que se enfrentam e que têm impedido o uso oficial da nossa língua materna no ensino, perguntámos à professora Amália Lopes, Doutora em Sociolinguística e Coordenadora da comissão da UniCV que preparou a semana da língua materna, qual é a resposta, mas ela disse que não é fácil responder a essa pergunta.

 

A Professora Amália Lopes disse que o estudo que fez para o seu doutoramento mostrou que os caboverdianos têm um sentimento confuso sobre o crioulo.

 

Depois, perguntámos à Professora Amália Lopes se ensinar os meninos na escola em crioulo prejudica a aprendizagem das outras línguas e se causa confusão na aprendizagem da língua portuguesa. Ela disse que isso é uma ideia que se criou, um mito que foi criado, mas que não prejudica o conhecimento de outra língua. A Professora Amália Lopes disse ainda que, se prejudicasse, então ninguém aprenderia uma segunda língua.

 

Ela apontou que tudo depende da forma e da metodologia que forem usadas. A Professora Amália Lopes disse ainda que não devemos nunca pensar que se na escola se ensinar em crioulo, os meninos ficam prejudicados na aprendizagem do português.

 

A apresentação do programa sobre a semana da língua materna e a palestra sobre “As Línguas Maternas num Mundo Multilingue” acontecem hoje no Campus da UniCV, no Palmarejo.

 

Fonte: Redacção RTC, com RCV (Anatólio Lima)

Tradução do Crioulo: Maria E. Catela

 

M. C.

 

publicado por M. C. às 19:45

O Crioulo não prejudica a aprendizagem do Português

 

A propósito da comemoração, no dia 21 do corrente, do Dia Internacional da Língua Materna, a Radiotelevisão de Cabo Verde apresentou o programa Entrevista, que se debruçou sobre o Crioulo caboverdiano e a sua convivência com o Português, língua oficial. A convidada foi a Professora Doutora Amália Lopes, docente na Universidade de Cabo Verde (UniCV). A esse propósito, foi emitida a seguinte notícia, em crioulo no original (ver versão em português) que aqui se transcreve:

 

Universidadi di Cabo Verde sta bem realisá un conjuntu di atividadis pa ka dixá pâsá en branku Dia Internasiunal dedikadu a tudu Língua Maternu.

Asin, UNI-CV dentu di atividadis di kursus di studu kabuverdianu i português, ta bem prumuvê atividadis moda palestras, conferênsias, divulgasón di trabadjus fetu na kriolu, atividadis kultural ku usu di língua, para além di momentus di treinamentu na usu di nós língua nasional ta ser fetu.

Oji, para além di aprisentasan di programa ta ser fetu un comunicasan pa Presidenti di Institutu Internasional de Língua Purtuguesa, Gilvan Muller, ki di forma à vontadi ta ba papiá sobri “Línguas maternu num mundo Multilingue”.

En relasan a prublemas ki ta infrentadu i ki ten impedidu usu ofisial di nós língua maternu na ensinu nu praguntâ profisora Amália Lopes, Dotora en Socio-linguística i Cordinadora di kel komisan di UNICV ki sta preparâ simana di língua maternu kal ke resposta i el fra ma ê ka fásil raspondê es prugunta.

Profisora Amália Lopes ta fra ma studu kê fazi, pa sê doctoramentu, ta mostrâ ma kabuverdianus ten un sentimentu confusu sobri kriolu.

Du praguntá profisora Amália Lopes si xinâ minis na scola na kriolu ta prejudiká aprendisagen di otus língua i kausa konfusan na aprendisagen di língua português, el ta fla ma keli ê stória ki kriadu, un mitu ki foi kriadu i el fla ma ê ka ta prijudika conhesimentu dotu língua. Profisora Amália Lopes fla ma sel ta prejudikaba, nton ninguén ka ta prendeba un sigundu língua.

El fla ma tudu ta dipendê di forma i metudologia ki for usadu. Profisora Amália Lopes fla inda ma nu ka debi nunka pensâ ma si na skola for enxinadu na kriolu ma minis ta fikâ prejudikadu na aprendisagen di língua português.

Aprisentasan di programa sobri simana di língua maternu i palestra sobri “As Línguas Maternas num Mundo Multilingue” ta konticê oji na Kampus di UNICV na Palmareju.


Fonte:  Redacção RTC, com RCV (Anatólio Lima)

 

M. C.

 

publicado por M. C. às 19:41

18 de Fevereiro de 2012

A escritora sueca Selma Lagerlöf (1858-1940) imaginou uma viagem de um ganso através da Suécia e como seria a visão da terra a partir do céu. Disso resultou, entre 1906 e 1907, o romance em dois volumes "A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia", intencionalmente escrito para crianças, mas que muitos adultos apreciam.

 

Esta escritora recebeu a medalha de ouro da Academia Sueca em 1904 e foi a primeira mulher a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1909.

 

Outras obras importantes são "A Saga de Gösta Berlings", sobre histórias e lendas (1891), "Laços Invisíveis" (1894) e "Os Milagres do Anticristo" (1897).

 

 

 

Entretanto, com o avanço da ciência e da tecnologia, foi hoje possível prender uma câmara monitorizada ao dorso de um alcatraz do Atlântico (Projecto FAME), do que se obteve o impressionante resultado que este vídeo mostra:

 

 

Um teste psicológico de personalidade faz a seguinte pergunta: Que animal gostarias de ser, caso tivesses a oportunidade de voltar a nascer? Eu gostaria de ser uma ave de grande porte. A liberdade que voar instila, a possibilidade de olhar o mundo à distância e sentir o vento, tudo isto apenas dependente dos nossos músculos e vontade, deve dar um prazer inimaginável...

M. C.

publicado por M. C. às 13:57

Maria Catela

Quem investiga tem algo para comunicar.
Quem não investiga, apenas reproduz ou apenas escuta.
Pedro Demo, 2001
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comentários
Olá ProfessoraGostaria de enviar-te um e-mail com ...
Bom dia :)O blog está em destaque na homepage dos ...
Olá! Que bom - toda a divulgação é uma ajudinha......
Bom dia :)Que bom que é poder ter boas notícias pa...
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